Tuesday, May 13th, 2008...9:25 pm
E Juca virou Jucá…*
Não sei o motivo, mas lembrei-me de 1968, quando visitei o Taj Mahal. O lugar era muito bonito, havia um enorme bacalhau coberto de sal grosso pendurado na parede por duas gravatas escuras. Não, não, não estou falando do templo da Índia. Taj Mahal é um pé-sujo ali na PPG, a Praia do Pentelho Grosso, do lado do drive-in do Galeão no Rio. Bom, estava lá palitando as obturações depois de saborear um delicioso calango assado, quando adentra ao recinto ninguém menos que…. ele, o cara, a figura, o beiço lambido, o nariz erótico, o Edward-mãos-de-dildo, o sensacional, o menestrel do Brasil: Juca Chaves.
Juca carregava sua linda viola forrada de couro de avestruz de um lado, e do outro, abraçado a ninguém menos que Ingo Hoffmann, que estava completamente mamado. Entre soluços e golfadas, Ingo fez questão de cumprir seu ritual: dançar polka após virar dois copos de xiboquinha ao mesmo tempo. Juca, doido como poucos até hoje vistos, entoava uma lendária música tcheca, tocando seu instrumento e trotando as banhas para a fazer a percussão.
Tudo estaria bem se Ingo não fosse estabanado e graças à caprichada dose de xiboquinha daquele dia — cortesia de seu Enéas, dono do “Taja”, como era coloquialmente conhecido o local — e não tivesse tropeçado e derrubado 3 mesas, 7 cadeiras, 18 pratos, 35 talheres e 2 gatos malhados que estavam em seu caminho. Um dos pratos, repleto do caliente caldo de mocotó com vinagrete servido no bar, voou pra cima de Valdão Stallone, um assíduo valentão do local. Este levantou-se puto e com a cara respingada de vinagrete. Agarrou Ingo e Juca pelos colarinhos, levantou-os no ar tal qual duas pichorras, e gritou: “Ô ô ô pfseus fisdaspustas!!!” — Valdão tinha língua presa, além da cicatriz que tinha na nádega direita, o que lhe rendeu o apelido de TuCuh, em homenagem ao seu ídolo, o rapper Tupac Shakur) “pvossês num pftem pfmais uqui pfazê não?”. E encarou ambos com aquele olhar 112, a uma infâme variante do olhar 43 para quem é vesgo.
Ingo tentou se explicar, mas mal conseguia balbuciar, graças ao efeito da cana. Juca alegou que tudo aquilo era efeito da xiboquinha e da polka, mas como o fuzuê era grande, com todos gritando enlouquecidamente ao mesmo tempo, resolveu cochichar a razão no ouvido do irritado cafajeste. Ao ouvir, Valdão abriu um sorriso que mais lembrava Sebastian, o eterno garoto-sorriso-propaganda da C&A, e rapidamente começou a arrastar os dois pra fora do Taja. Juca e Ingo, sem nada entender, começaram a interpelar o motivo do sequestro. Valdão limitou-se a abrir um sorriso sacana e falar, entre os dentes: “AAAAAh, pfmeu amÓr! pfsxiboquinha na minha polka e pfdança tcheca eu pfnão pfresisto! pfvamos lááááá pfro pfmeu pfbarraco!”. E lá se foram os três.
Desde então, Ingo e Juca nunca mais foram vistos. Não juntos e muito menos naquelas redondezas.
* texto de 2003.
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